Portfólio
Mariáh Salazar

Como Ser a Não Artista de Alguém
Julia Girard e sua história personalizada à mão com a moda, arte e estilo.
Reportagem
Logo de cara já se vê que ela é artesã. Inspira e vive arte, e seu quarto mostra muito isso. Com desenhos espalhados pelas paredes e peças de roupas personalizadas à mão em sua arara, Julia Girard, carioca sagitariana de 20 anos, mostra-se uma menina com personalidade forte e estilo característico. Sua paixão pela moda começou desde cedo, quando ainda era uma miúda, que gostava de desenhar roupinhas e vestir suas bonecas.
Com o passar dos anos essa paixão esfriou, até que Girard mudou-se para Portugal com seus pais, em 2019. Novos ares. Uma nova fase. Uma nova vida. Mudar de país não é nada fácil. A mudança de um país tropical para um país onde as estações do ano são bem definidas e o frio é intenso é sentido na pele e na moda. Girard conta que no Brasil só vestia cropped e short por conta do clima quente do Rio de Janeiro, “eu não era uma pessoa que me montava muito, não ligava muito para moda, de estar diferente das outras pessoas, estava sempre com tênis básico, short e cropped.”
Malas de viagem cheias de roupas de verão, sua chegada e de sua família em Portugal foi recebida com a brisa fria e leve da primavera. O impacto foi grande para Julia. “No começo foi bem difícil. Fiquei praticamente os primeiros 3 meses sem conhecer ninguém, em casa sozinha, sem estudar, sem fazer nada.” Com seus 17 anos, Julia estava no auge da sua adolescência, com uma nova vida, em outro país, longe de sua zona de conforto e de seus amigos, “minha vida estava no Rio, todos os meus amigos estavam lá”, diz ela.
E com o desconforto do frio, da solidão e do novo, ela precisava se adaptar e se encontrar onde estava. Criou então uma conta no Instagram onde vendia acessórios e bijuterias feitas à mão, chamada Julia Store, que depois se chamaria Girard Store. “No começo fiquei perdida com o meu estilo”, afima, e com o fim de um relacionamento entrara em um conflito com seu estilo próprio. Mas esse fim foi para o bem.
Depois de ter seu coração partido, Girard, sem querer, começou a entender sua relação com a moda e encontrar seu estilo, apesar de não saber defini-lo. “Gosto de umas roupas mais vintage voltado para o streetstyle, com calças largonas e cropped.” Era uma mistura da Julia do Brasil com a Julia de Portugal, no começo.
Em 2020 veio a pandemia, e Girard começava a se interessar cada vez mais pelo mundo da moda. Comprava peças de roupas em segunda mão e se inspirava em looks através do Pinterest. Montar looks, criar conjuntos de roupas e acessórios era algo que adorava, e aos poucos ia se encontrando na moda e no seu estilo, e da melhor forma, sendo sustentável.
Sabe-se que a indústria têxtil é uma das indústrias responsáveis por grande parte da poluição do meio ambiente, estando entre as dez indústrias que mais poluem no mundo, sendo responsável por 10% das emissões de carbono à nível mundial. Além disso, é utilizado cerca de 2700 litros de água na produção de uma T-Shirt, equivalente a água potável suficiente para uma pessoa consumir durante dois anos e meio, segundo o site do Parlamento Europeu.
Girard comenta sobre Upcycling, que é a reutilização de uma matéria ou produto que seria desperdiçado e dar-lhe uma nova vida, e o Recycling, que é a reciclagem e decomposição de matérias-primas para criar novos produtos. Ela enfatiza sobre a importância da sustentabilidade para o meio ambiente e para a indústria fashion, e utiliza disso no seu dia a dia e nas suas criações, uma vez que personaliza roupas já prontas e dão-lhe uma nova vida, com sua personalidade artística.
Se tem uma coisa que Portugal fez Girard perceber foi que a moda e a arte é o seu amor. Apesar de não saber definir seu estilo, ela não o define num estilo só. Girard se considera uma pessoa versátil, gosta de peças vintage e de segunda mão, mais voltado para o streetstyle. “É uma mistura de várias coisa que eu gosto e acabo adaptando do jeito que me identifica”, diz ela. Nas suas composições prevalece sempre o denim e o oversized.
Girard também cita algumas dificuldades que sente na área da moda, onde é complicado colocar um preço numa peça, pois nem todos estão dispostos a pagar por aquilo ou até mesmo que valha aquele valor. Ela diz “é muito difícil você botar preço numa arte, e a pessoa dar o verdadeiro valor naquilo.” Por ser um trabalho totalmente manual, Julia coloca seu esforço e tempo na customização.
Julia Girard segue fazendo o que ama, personalizando roupas e vendendo para pessoas interessadas e amigos mais próximos, colocando seu coração, sua personalidade e a arte que vem de dentro para o tecido, dando-lhe uma nova cara e uma nova vida.


Dois anos se passaram, e Julia estava mais certa de sua decisão. Seu Instagram, onde antes vendia acessórias e bijuterias feitas à mão, agora vendia peças de roupas personalizadas à mão, além de mostrar sua arte e seus desenhos para quem a seguia. Not Your Artist, novo nome de sua conta, era uma realidade.
2022 foi o ano de se encontrar. Decidiu seguir pelo caminho da moda e entrou em um curso técnico de moda no Porto, a Lisbon School of Design (LSD). Para além disso, entrou em abril do mesmo ano como designer numa loja online de roupas, a Chronic, onde permanece até hoje.


13 de Novembro de 2022